Mini-biografia alterada
A vida em uma noite
Era noite de verão, quente como todas as outras. Um jovem andava por um caminho cercado de uma densa mata brejeira. Mantinha as mãos nos bolsos e a cabeça baixa. Seu caminhar era leve, por vezes torto e discreto. Chegou até uma pequena ponte de acesso ao lago, onde parou por um instante e ficou contemplando a corrente da água, o reflexo da lua e o piscar dos vagalumes. Suspirou e resolveu sentar-se. Encostou a cabeça em uma das quinas do peitoral da ponte e assim permaneceu por horas.
De onde vem a dor? Essa que me consome. De onde vem o pesar de cada dia? Aquele que me transporta para dimensões tão diferentes. Pra onde vai tanta esperança de um dia ter ela de volta? E pra onde vai tanto sofrimento de nunca mais tê-la?
São tantas perguntas sem respostas. São tantas incógnitas em nossas vidas, mas a vida é bela. Ela nos faz sorrir e chorar, nos dá a alegria e a tristeza, nos faz cair e levantar. As vezes nos dá isso tudo de uma vez só, e sem aviso prévio. É uma notícia que chega derrepente, é um gesto que se faz do nada, é uma palavra, um olhar, uma expressão sequer que constrói e destrói.
Já cansei de fazer planos, de imaginar o futuro. Também já cansei de viver o presente sem me importar com o que está por vir. E da mesma forma já me prendi ao passado, de uma forma tão grande que cheguei ao ponto de ficar louco. A quem quero enganar? Eu sou louco. Louco por alguém que não me quer. Louco por alguém que um dia me disse coisas lindas, e as esqueceu. Louco pelo amor que há dentro de mim e que havia dentro dela. Louco por não me desprender disso, não que eu queira, ou talvez, justamente porque eu quero. Quero ser livre e viver a liberdade, tendo alguém que sinta o mesmo que eu, sinta-se livre e que não tenha medo de amar.
O que faz com que amor acabe? Muitas respostas podem ser aplicadas a essa pergunta, mas, na verdade, nenhuma delas justifica a perda. Sei que quando amo ultrapasso barreiras e me transformo em um sonhador, capaz de fazer tudo pra que nada atrapalhe o que sinto. E por causa de tudo isso, me encontro aqui, falando comigo mesmo, em silêncio, desfrutando da única coisa que me resta na vida. A solidão e meu bom e velho companheiro. Eu mesmo.
Numa casa próxima dali, uma jovem estava sentada na varanda de sua casa. De frente para o mesmo lago e observando os mesmos vagalumes piscarem. Dentro da casa pessoas assistiam televisão, algum programa do horário nobre. A cabeça dela estava muito ocupada e confusa. Ela então levantou-se e se pôs a caminhar. Perto de uma outra ponte de acesso ao lago ela cruzou os braços e entortou a boca, suprimindo algo que a fazia mal por dentro. Percebeu que logo ali ao lado existia alguém, sentado e olhando a água. Aproximou-se e viu um jovem angustiado e jogado, sem perspectiva alguma.
"Olá." - Ela disse.
O jovem virou-se e pôde ver quem estava chegando perto dele.
"Oi..." Respondeu. "Boa noite."
"Boa noite."
Um silêncio consumiu o ambiente e a jovem sentou-se ao lado do jovem, também olhando o mar.
"Uma noite agradável, não?" Ela disse.
"Não diria isso." Ele respondeu com a voz triste.
"Por que?"
"A noite está linda, mas não se tornou agradável pra mim."
"Desculpe-me, não queria atrapalhar seu silêncio."
"Não se desculpe. Pensei em ficar sozinho, achando que talvez as coisas se resolveriam, mas já estou sentado aqui há uma hora e nada mudou."
"Contou o tempo?"
"Não, mas de um tempo pra cá venho sentido-o passar de uma forma perceptível, como se todo o resto fosse inútil."
"Acho que entendo o que você quer dizer."
"Entende?"
"Talvez."
"E o que lhe faz pensar isso?"
"Perdas."
O jovem não soube o que responder.
"Tudo bem, já faz algum tempo. Mas todos os dias eu sinto a ela. Minha mãe se foi, deixou-me sozinha nesse mundo e foi para outro." Ela completou.
"Não pode culpá-la por isso."
"Não a culpo, apenas me sinto mais sozinha do que nunca. Existe um buraco em meu peito."
"No meu também. Minha perda foi por alguém que decidiu me deixar."
"Amor?"
"Sim. Amor."
"Nunca passei por isso."
"Nem queira."
"Lhe digo o mesmo, em relação à minha perda."
"Não quero, mas sei que esse dia um dia irá chegar."
"... É verdade."
"Por isso lhe disse que não deve culpá-la, ou sentir-se sozinha por isso. Não foi culpa dela deixar você sozinha, aliás, você não está sozinha. Não tem outras pessoas?"
"Na verdade não. Vivo com meu pai, que é indiferente à isso, bebe o dia todo e não liga mais pra nada. E meus irmãos moram fora."
"Por que não vai morar com eles?"
"Não quero atrapalhar suas vidas. Quero seguir a minha, mesmo que demore um pouco."
"Sua perda é dolorosa e eu reconheço isso. Mas tente sorrir. Você ainda está aqui e muitas coisas boas ainda estão aí pra serem vividas."
"Estou tentando."
"Mas, me prometa uma coisa?"
"O que?"
"Nunca abandone alguém. E caso ache uma pessoa que você acredite que valha a pena amar pra sempre, ame-a. Custe o que custar, dê as mãos e nunca deixe-a ir embora."
A jovem sorriu. Olhou nos olhos dele e estendeu a mão.
"Quer dar uma volta?"
O jovem a olhou e sorriu de volta.
"Acho que é uma boa idéia"
Pegou na mão dela, e então levantaram-se. Saíram juntos e foram longe a sumir na escuridão.
Mini-biografia alterada de um capítulo da vida, simbolizado em um momento, em uma noite de verão.
Gustavo Gaspar


3 Comments:
lindo isso, principalmente porque de perda eu entendo ...
qto amor....
Q Tchuqi Tchuqui!!
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