Quinta-feira, Abril 17, 2008

Vidas e solidões

Naquele dia eu não precisava de mais nada além de boa música e um bom lugar. Olhei ao meu redor e avistei o maço de cigarros. Claro, como pude me esquecer de você. Corrigindo-me, naquele dia eu não precisava de nada além de boa música, um bom lugar e meu maço de cigarros.

Sorri...

Sentei-me na cama, peguei um dos cigarros do maço que estava em cima do criado-mudo e o acendi
com um fósforo. Puxei a fumaça e senti ela me consumir. Até certo ponto ela tomava conta de mim, possuía-me, e logo em seguida eu a expulsava de meu corpo. Acompanhei suas formas dançantes, subindo e sumindo no ar.

Deitei-me...

Comparei o teto com o chão. Olhei as paredes. Por um momento achei estar de cabeça para baixo. Eram idênticos, da mesma cor, forma e plano. Na verdades vocês são um só, teto, chão e parede. Juntados nesse cubículo mórbido. Juntos também comigo, esse velho ordinário sem rumo. Permaneci deitado, sem forças para erguer-me. Fiz um pouco de esforço mas minha vontade era estar ali deitado, sem pressa alguma para sair.

Dormi...

Por alguns minutos apaguei por completo e fui parar em outr
o mundo. O mundo repleto de possibilidades e de felicidade. Tudo pode acontecer, e nem precisa ser real. Realidade para que? Se o sonho possibilitasse a realidade não seria sonho. Teríamos as conseqüências da vida e o sonho seguinte seria a continuação do anterior. Não, não mesmo. Prefiro assim. Nada de vínculos, somente o sonho e nada mais.

Acordei...

Respirei fundo e levantei. Meus pés tocaram o chão e eu senti a realidade de volta ao meu alcance. Prefiro o sonho. Olhei para a porta, me pus de pé, peguei meu chapéu no cabide ao lado e atravessei para fora daquele lugar. Tomei posse do corredor obscuro de minha vida, desci as escadas de minha decadência e ultrapassei a porta de meu desespero. Cheguei à rua, o local da desordem e o mundo de ninguém.

Andei...

Passei pela pequena ponte do lago, vi sua água limpa e negra, já era noite. Algumas bolhas se faziam presentes, mas nenhuma vida saltava, era totalmente ausente. Há muitos peixes por aí, devem estar dormindo. Assim como eu dormi. Todos precisam sonhar ao menos um pouco, senão o que seriam deles? Pobres peixes. Serem devorados no dia seguinte ou pescados por um molinete.

Enfim cheguei à praça. Os prédios do outro lado fazem suas luzes brilhar, pintando de preto e branco a paisagem e o mar. Temos um movimento, um vendedor de amendoim torrando o produto ao fogo com seu pequeno rádio ligado ao som de um blues bem calmo e um casal logo atrás no banco a se beijar. Casais de Romeus & Julietas. Vendedores ao relento, vendendo seu alimento para se alimentar. Acendo outro cigarro e o faço queimar, o vento me ajuda com isso e balança meu chapéu. O frio tem aumentado e nada pára o jovem casal que se excita com o momento frágil a sós, sem saber que daqui a alguns meses tudo irá terminar. O velho se agasalha como pode, esquentando suas mãos ao fogo que o mesmo vento que queima meu cigarro, sacode meu chapéu e empurra o mar faz trepidar.

Enfim, mais uma noite só, com a companhia de desconhecidos. Meu cigarro, meu chapéu, a música, a cidade e o mar.















Gustavo Gaspar