Domingo, Setembro 21, 2008

O sono involuntário

Os dias hoje em dia parecem ser tão longos. Passam se arrastando pelas beiradas. Não que eu seja velho o suficiente para destacar de uma forma abrangente como quem viveu nos anos 50, 60 e 70. Mas sou neto e filho, já ouvi muitas histórias e elas são contadas com riqueza de detalhes. Mesmo sendo passagens simples da vida, possuem mais conteúdo que os causos de hoje.  O divertimento era analógico e não digital, se assim me permitem dizer. Era sair de casa com seu peão na mão e ir jogá-lo rua a fora. Era correr atrás de pipa sem tanto perigo como há por aí, podendo se perder pelo mato com amigos e quem sabe encontrar algo divertido para se contar no dia seguinte. Era sorrir apenas por chutar uma bola e fazer um gol, seja num campo de terra batida ou num de grama gasta. O importante era estar ali junto com todos e se divertindo pra valer até cansar. Jogar bola de gude e vibrar ao ganhar algumas mais pra coleção. Colar figurinhas no álbum e pular de alegria a cada novo pacotinho aberto. Contar até cem e começar a procurar os amigos pelo pátio do prédio ou na rua mesmo, achando um por um no pique-escondo. Enfim, brincar era mais divertido. Brincar era viver e ser criança era um evento. Com o passar dos anos esse divertimento foi se moldando, nos fazendo ficar presos dentro de casa com nossas novas máquinas de diversão sintética.

Acredito que a importância dessas mudanças são sim significativas para todos nós, mas aconteceu de uma forma muito rápida. Muita informação ao mesmo tempo, muitas novidades. A euforia se tornou algo normal. Ter quase um ataque de nervos absorvendo e absorvendo nos deixou paranóicos e mais submissos à cegueira coletiva. Esquecemos dos princípios e vamos com voracidade em cima da tão suculenta tecnologia.

Só espero que logo as coisas diminuam de velocidade, pois o avanço é rápido demais e nossos dias acabam sendo arrastados perante tanta inovação irregular que na verdade nos prende a nós mesmos. A pressa da evolução pode levar a perdas significativas, caminhando para um cerco sem fim, terminando na ironia de uma involução mais cínica de todas. Onde iremos sucumbir a um sono profundo e nunca mais acordar.

Gustavo Gaspar

1 Comments:

Anonymous japa. said...

Já disse que você me deve um conto? Pois é.. aquele conto lembra.
O que eu tô fazendo aqui.. eu lá vou saber que você lê os posts antigos. E você tecnicamente me odeia (mania de perseguição ativado) incrivelmente pensei em você e agora tô aqui. Lendo os seus posts e encaixando as minhas semanas neles.
Sinistro, né?
Boa semana pra ti. Nem vou pedir desculpas pelas minhas atitudes.. como você mesmo disse, cansou. né?

22:38  

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